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[Segunda-feira, Março 29, 2004]
Criando Monstros
A Fabi chamou a atenção, a Ju linkou.Eu acrescento o artigo da Marisa Orth, ela disse algumas coisas que eu gostaria de dizer sobre o assunto.
As drogas existem há muito tempo.Os ricos também.Em algumas épocas da história as drogas e os ricos tomaram proporções absurdas.No declínio do Império Romano, nos loucos anos 20, nos anos 60-70 e daí não parou mais.
Quer dizer, parar, não parou nunca, mas nas últimas décadas a combinação de amoralidade com dinheiro tem feito mais estragos do que as duas grandes guerras do século.Quero dizer amoralidade como falta de valores humanos, de ética, de amor.E os estragos porque todo mundo quer ser rico, e como não pode, imita.Daí os meninos da favela usam drogas e se sentem iguais aos mauricinhos da zona sul.
Ah, tà bom que você não sabia que isso existia!
Onde você vive?Na sessão da tarde?
Você é jovem demais pra ter ouvido falar de Cláudia Lessin Rodrigues?Ou de Araceli?Mas de Leila Diniz e Doca Street você já ouviu.Esqueceu o índio Pataxó?E o garçom de Porto Seguro?E a moça que matou os pais?Ah, você acha que são coisas diferentes?
Qualquer seriezinha trash americana traz um pouco dessa realidade vale-tudo.Os Realitys shows, como o citado na reportagem, com a herdeira do grupo hilton e a filha do lionel ritchie.
Há algum tempo atrás a polícia fechou uma rinha de galos.Na manhã seguinte o governador recebeu um apelo desesperado de um publicitário milionário e conhecidíssimo pra quem "aquilo era mais importante que todo o dinheiro e sucesso".
Me responda, a que nível de tédio chegou uma pessoa que tem dinheiro pra fazer o que quiser, mas pra quem o único prazer é ver bichos se bicando até a morte?
E de onde vieram essas pessoas?
De lares desfeitos?Abusados sexualmente?Torturados como os maníacos serial killer americanos?
Não.Da teoria que tudo pode, que são melhores que os outros, do "direito divino", do povo escolhido(nada a ver com judaísmo, hem gente?).
E começa, sim, quando você tira da criança o direito de ser criança, de ser filho, direito ao amor dos pais, à sua atenção, a brincar(e não ao monte de brinquedos).Quando a gente ensina a desconfiança, a competição, que os outros são "diferentes".
Pra que a pressa?Essa corrida vai pra onde?Pros olhos tristes da Sandy?Alguém ouviu a Angélica falar que "finalmente a análise a libertou"?
Como será chegar aos 20 anos e já estar cansada, já ter visto tudo, experimentado tudo?
Eu já havia comentado isso aqui.Deixem as crianças brincarem.
Balé aos cinco anos de idade, piano aos três, violino aos quatro?
Só se for de brincadeirinha, no teatrinho ou na bandinha do jardim.Aprender de verdade, sistematicamente?É crime.
Aquelas meninas da ginástica olímpica como corpo deformado pelos hormônios, passando fome pra não crescer e trazer medalhas para seus países são deformações do espírito olímpico.
A competição leva à droga também, querer ser sempre o melhor, superar limites a qualquer preço.
Quem não se lembra dos Yuppies ?O stress, as doenças cardíacas...e as drogas.
Os anos 80/90 foram a decadência da liberdade hippie.O amor livre, as drogas como exacerbação dos sentidos, o questionamento de todos os valores.O capitalismo pega todas as revoluções, engole e as vomita do jeito que lhe é mais útil.Num país com a distribuição de renda perversa como a nossa, alguém tem dúvida que o modismo ia chegar ?e que já deve estar sendo imitado nos bailes funks e nos "aparelhos" de crack?
Alguém tem alguma dúvida que os pais acobertam?Que os médicos escondem?Que a imprensa é conivente?
Que sai nos filmes, nas novelas, disfarçado de ficção, sob o pretexto de alertar, mas na verdade incentivando nosso voyerismo, nossa inveja, criando um mercado consumidor de classe média para o crack e o êcstasy.Mais em conta.Mais potência a menor custo.
por Mani * 11:17 AM
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[Quarta-feira, Março 24, 2004]
Et vive la diference
Os cientistas hoje em dia já sabem que somos diferentes.
O capitalismo já descobriu que é possível sermos mais exploradas.
Aí duas coisas me chamaram atenção:
Um artigo numa revista(veja, istoé, época) velhíssima do stephen kanitz(é assim que escreve?) falando da modo feminino de administrar.
Dizia ele que nas 100 maiores empresas do Brasil, as mulheres são minoria absoluta em cargos executivos.Mas que nas ongs elas(nós) são maioria absoluta.Um novo estilo de administrar a empresa como têm feito com suas casas, a vida toda.
Antes que a galera caia matando, isso significa orçamento apertado, problemas urgentes de sobrevivência, doença do filho da empregada, com fila do SUS. desemprego repentino do marido,coisas com que as mulheres convivem há anos.Numa ONG significa que o financiador retirou os recursos e ela tem 600 crianças que precisam comer.
Ou 50 doentes que precisam de remédio.
A segunda coisa foi um desses documentários do GNT(eu não vi todo, nem sei do que se trata direito) falando que as mulheres sentem mais empatia do que os homens, bioquimicamente falando.Lembram da ocitocina?A responsável pelas contrações do parto, pela produção do leite materno e pelo desejo sexual?Pois a fulana é responsável pela empatia feminina.
Meninas, A SÍNDROME DE N.SRA EXISTE E É REAL!!!!!
O que acontece é que o parto e a amamentação aumentam a produção de ocitocina, que é responsável pela empatia, que é , pra quem não sacou, a capacidade que temos de nos colocar no lugar dos outros.De sentir o que o outro estar sentindo, ou pelo menos tentar.
Bom, tá certo, esses cientistas querem explicar tudo através da química, agora.Mas quem sabe?Daqui a pouco pode ser que tenhamos "empatia em frasquinhos".Será que uma injeçãozinha(daquelas de induzir parto) faria o Bush melhorzinho?
por Mani * 9:00 AM
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[Segunda-feira, Março 22, 2004]
Inteligência Sexual
Cresci sob a égide de "Os homens são mais inteligentes que as mulheres".
Não, minha família não dizia isso.
Oficialmente, o mundo também não dizia mais isso.
Escondia-se sob a forma de " o cérebro do homem é maior que o da mulher" ou sob a comparação de quantas mulheres e homens se destacaram na obtenção de prêmios nobéis e pulitzers, etc,etc.
As feministas, passada a euforia dos anos 70 e da revolução sexual eram vistas como histéricas, lésbicas, frustradas.Era muito comum nas mulheres afirmar que lutavam por um novo papel para a mulher, mas "não eram feministas".
O sistema capitalista absorveu o trabalho feminino, porque o capitalismo é assexuado, mas cobrou um preço muito alto.Exigiu que as mulheres, para serem tratadas como iguais se igualassem aos homens, desprezando o que as diferenciava.
Hoje, muitas de nós sofrem com uma parte de si da qual tiveram que abrir mão para serem aceitas num mundo pequeno e competitivo, o masculino.
Mas graças a deus, tudo muda.
Hoje em dia está nascendo um novo casamento, um novo relacionamento, uma nova maneira de ver a vida.
Onde eu não sou diferente de ninguém porque tenho TPM, gravidez, parto e peito.Onde é tão importante pra o pai quanto pra mãe que o filho esteja bem alimentado, bem vestido, saudável e feliz.E que sabem que a presença dos dois é importante pra isso.E que trabalhar(nem sempre na fábrica, ou no escritório) é necessário pra que qualquer ser humano preserve sua sanidade mental.
O que eu quero dizer é que o importante não é quanto dinheiro eu trago pra casa ou quais contas eu pago.E que se qualquer um dos dois quiser dar um tempo da carreira pra ficar em casa com as crianças(ou até só em casa, sem crianças), se isso não for uma cruz nas costas do parceiro, o que é que tem?
Se a gente dá com prazer, ninguém tem necessidade de pedir.Se a gente pede e o outro não faz cara feia, aquilo também não nos constrange.
Se a gente ama, não tem porque jogar o jogo do poder, nem humilhar, nem ser humiilhado.
Isso tem a ver com auto estima, com comportamentos aprendidos, com amor de pai e mãe.
Uma discussão estéril é sobre a igualdade entre homens e mulheres.Lógico que não são iguais.Física nem mental nem emocionalmente.E daí?As mulheres e os homens também não são iguais entre si.Os negros, os gays, os japoneses, os muçulmanos, tanbém não são iguais.Possem coisas em comum?Sim, mas eu sempre vou achar algo em comum até com o meu cachorro(eu e ele adoramos chica bom, por exemplo).
Não, por favor.
Não vamos rotular os comportamentos, as origens, as pessoas.
Aliás, isso me lembra uma outra questão.
Como é fazer "um casamento desigual"?
A expressão é antiquada de propósito.
Como é se casar com alguém com uma formação completamente diferente da sua?
Não precisa ser nem uma questão de "classe social".Países diferentes, religiões diferentes.Como é se casar com um cara de família religiosa tradicional, mesmo ele tendo a mente aberta?
Ou pra um japonês, casar com uma menina italiana?Como é lidar com as famílias?A exuberância de uns versus o retraimento dos outros?
Sei lá, e os casamentos mais convencionais não são meio inssossos?
Quando você casou, levou a família junto?
por Mani * 11:39 AM
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[Sexta-feira, Março 19, 2004]
Cadê o meu Bebê?
Você teve um anjinho.Engatinhou, andou, chorou, fez malcriação, mas no geral, continuava um anjinho.Dormia, comia, brincava.Até ia pra escola.
Aí o danado fez três anos.E o seu anjinho já era!
Bate no cachorro, puxa o rabo do gato.Sobe em tdo, brinca com as panelas.Tá, normal, ele fazia isso com um.
Mas agora ele cresceu, já sabe que tá errado!
E a malcriação.Aprendeu o não.
Não vou! Não quero.Não gosto de você!Você não é mais minha mãe! QUERO QUE VOCÊ MORRA!
Bom, com essa a mãe quase morreu mesmo.
O que acontece é que o seu filho está descobrindo que o mundo não cabe em quatro paredes.
Que o que antes se limitava aos ambientes conhecidos, seguros, é muito maior.E que ele não só pode crescer, ficar diferente, como pode perder tudo que conquistou.
As pessoas passam a ser ameaças ao seu mundo particular.A mãe não é mais só dele, a escola não é mais segura.Os brinquedos passam a ser possessões importantíssimas, que definem quem ele é.
Agora ele vai começar a experimentar as hipóteses de construção da sua personalidade, do seu comportamento.E dependendo da sua resposta, escolher o seu trajeto de crescimento.
A primeira coisa a fazer é evitar a tal síndrome dos miquinhos amestrados.
Desista de se mostrar e de mostrá-lo, vc vai pagar todos os micos possíveis.
Cuidado com a língua, não fale nada perto dele que não possa ser repetido em público.
Não minta, vc pode ser exposta só de pirraça.
Se o seu for do tipo escândalo na rua, no primeiro se prepare pra pagar logo o MICÃO pra não precisar passar por isso de novo.Deixe se esguelar todo, vá embora(até a esquina estratégica mais próxima, claro) e não se esqueça de dar um castigo pesado.
Entre pra Yoga, Tai-chi, meditação transcendental, aprenda a contar de tras pra frente, mas evite de perder a paciência.Em público.
Em particular, de vez em quando perca a paciência completamente e grite.Mas em vez de gritar COM ELE, só grite.Desabafa.Ligue o liquidificador junto, assim os vizinhos não chamam a polícia.
Essa é uma idade que exige demais da sua paciência, explique tudo, uma duas, dez vezes.Mas mantenha-se firme.Se não pode, não pode.Você pode dizer porque 50 vezes, mas não pode ceder porque ele insistiu ou porque chorou.
Você pode mudar de idéia, mas o faça da próxima vez, não ceda sob pressão.
Você é a adulta.Não tem direito de ficar magoada se ele disser que não te ama, que te odeia, que quer que você morra.É tudo mentira.Dê um livro da Bela Adormecida ou de João e o Pé de Feijão e deixe ele resolver os próprios conflitos.Mas não diga a ele que ele tem conflitos edipianos.Ele pode perguntar a alguém e te fazer passar vergonha na próxima reunião de família.
Enfim, todo mundo passa por isso, seu filho não é mais um bebê, percebeu que é uma pessoa, que há vida fora do útero, está procurando sua individualidade, construindo quem ele será.No processo de cortar o cordão umbilical, pode sair um pouco de sangue.Seu e dele.
Paciência, firmeza, confiança em si e no amor de vocês.
Vai passar.
por Mani * 11:55 AM
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[Segunda-feira, Março 15, 2004]
Brincando por Brincar
Antigamente, as crianças brincavam muito.Havia a rua, os terrenos baldios, as "roças", os rios.As crianças viviam soltas e livres para construir suas próprias brincadeiras e descobertas junto com outras crianças e longe dos adultos.
As cidades cresceram, os espaços encolheram, vieram os carros e a violência e expulsaram as criança pra dentro das grades dos condomínios.
Acabou a diversidade cultural que fazia a convivência de ricos com pobres e alargava a consciência daqueles obrigados a perceber que o mundo era mais que as quatro paredes do seu mundinho.A falência do sistema público de ensino foi co-responsável por essa monocultura do consumo como nivelador de relacionamentos.Hoje as crianças só convivem com os seus "iguais".
A brincadeira também empobreceu.Empobrecendo o espaço de convivência, empobreceu o universo cultural.Viramos Marias Antonietas.Não somos mais pobres de marré deci.
Ao mesmo tempo, a corrente pavloviana americana começou a tratar o cérebro dos bebês como "livros em branco", nos quais quanto mais cedo começássemos a escrever, mais linhas fosse suportar.
Foram publicados estudos de como "treinar" os filhos desde cedo, como empurrar o conhecimento "enquanto as sinapses estão se formando".Como o rato no labirinto.
Ao longo desses anos estudamos o conhecimento e como ele se forma no cérebro infantil.Os países latino americanos, na esteira de Piaget, preocupados com o alto índice de analfabetismo e fracasso escolar descobriram que a absorção de conhecimento depende da construção de teorias e hipóteses .Para construí-las as crianças precisam amadurecer o raciocínio e as emoções, o que elas conseguem...brincando.
É, foi isso que o construtivismo e o social-interacionismo e outras teorias e métodos mais descobriram.Mas ainda se achava que dirigindo a brincadeira das crianças se pudesse "levá-las" para onde queríamos.Bom, não é bem assim.
Hoje sabemos que o movimento é exatamente o contrário.
Em vez de dar uma direção às brincadeiras feitas no espaço fora da sala de aula, devemos levar a brincadeira para a sala de aula.As crianças aprendem mais e melhor brincando, sim.Mas é brincando livremente que constroem estratégias de raciocínio e aprendizado que vão se refletir no espaço formal.
Ao contrário, hoje observamos as brincadeiras no espaço livre para aplicá-las em sala de aula.Foi assim que detectamos uma enorme necessidade da criança moderna de classe média, de estender seu universo às classes "menos favorecidas", ao mundo real.Não o mundo assistencialista da visita ao orfanato, mas o mundo real das crianças reais como ela, que brincam de "elástico" e "adoleta", não são pivetes nem mendigos, enfim, que pobreza não é contagiosa nem exótica.
Deixando as crianças brincarem juntas vemos as barreiras ruindo, da idade, do sexo, dos preconceitos.Os meninos perdem o medo de brincar de casinha, se não tiver ninguém a julgá-los.As meninas da mesma forma com os brinquedos "masculinos".Na hora de decidir o faz-de-conta, entra em cena o universo cultural de cada um e eu já vi de barbie a zumbi dos palmares, passando pela cozinheira, executiva, professora, agricultor, pedreiro.
E quando os universos até então restritos se misturam, a curiosidade é despertada e rende projetos educativos riquíssimos, como o da formação cultural do povo da sua cidade/estado/país.Ou da genética que nos torna ao mesmo tempo tão diferentes e tão iguais.
A bricadeira, os contos de fadas, as cantigas de roda e de ninar servem ao mesmo objetivo pedagógico, ajudam as crianças a lidarem com o futuro mundo dos adultos com um jeito próprio, no seu próprio universo infantil.
por Mani * 9:18 AM
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[Sexta-feira, Março 12, 2004]
Eu te darei o céu, meu bem
Acho que Roberto e Erasmo continuam incompreendidos.
Mesmo as coisas mais bregas ainda têm o poder de me surpreender nas ocasiões mais inusitadas.
MESMO QUE SEJA EU
Sei que você fez os seus castelos
E sonhou ser salva do dragão
Desilusão, meu bem
Quando acordou, estava sem ninguém...
Sozinha no silêncio do seu quarto
Procura a espada do seu salvador
E no sonho se desespera
Jamais vai poder livrar você da fera
Da solidão...
Com a força do meu canto
Esquento o seu quarto pra secar seu pranto
Aumenta o rádio
Me dê a mão...
Você precisa é de um homem
Pra chamar de seu
Mesmo que este homem seja eu...
Mesmo que seja eu
Um homem pra chamar de seu...
Quando a gente vai se contentar com um homem pra chamar de seu?Quando vai deixar de esperar pelo príncipe encantado?
Ou quando vai parar de querer transformar o homem que temos naquele que sonhamos?
por Mani * 8:34 AM
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[Quarta-feira, Março 10, 2004]
A Maldade do Mundo
Eu nasci católica numa família assolada pela mediunidade.
Todas as mulheres da minha família têm premonições, pressentimentos,visões.
Eu fui batizada, fiz primeira comunhão, estudei em colégio religioso a vida toda.
E aos 16 anos me recusei a ser crismada, não me sentia segura para efetuar uma confirmação no catolicismo.
Fui estudar Sociologia e ,durante muito tempo, acreditei que o homem é produto do meio.
Quis acreditar no homem intrinsecamente bom, e que agindo sobre os fatores que causavam a doença da sociedade poderíamos curá-la.
Fui aprendendo a duras penas que não é bem assim.
Trabalhando com crianças e com pais de crianças, pensei que agindo na "fonte", faria a diferença.
Não é bem assim também.
Hoje aprendi um pouco sobre a natureza humana e um pouco sobre mim também.
Eu não sou uma pessoa boa.
Por dentro, lá no fundo, tenho uma natureza muito ruim.
Luto todos os dias desde que acordo, contra meus instintos básicos.
Luto contra a preguiça, contra a vontade de decretar feriado e não mandar os filhos pra escola.
Luto contra a gula, não quero dividir o refri, o sonho, o salgadinho.Já torci pras crianças não acordarem enquanto assaltava os últimos brigadeiros.
Luto contra a cobiça, a inveja, a vontade de roubar, luto contra a tentação das vitrines, da corrupção, da fraude.
Luto contra a mentira todo dia, mas perco e continuo mentindo.
Luto contra o ciúme, desejo o marido da minha amiga e pra não perder a briga, perco a amiga.
Sou rancorosa, raivosa, destemperada.
Faço chantagem emocional com meus filhos, nem sempre faço meu trabalho direito.
Mas luto comigo mesma a cada passo do caminho.
Mas eu vejo gente que acha que não precisa.
Mostra uma aparência pra sociedade, um rosto plastificado, um botox moral.
Mas se você der corda, os músculos relaxam e as rugas aparecem.
E você vai enxergando buracos, sulcos, torções, que a pessoa não faz mais questão de disfarçar.
E você pensa, "coitadinho, é preconceito meu" ou "ah, talvez ele só precise de um toque"
Mas depois de anos na minha profissão você aprende a diferenciar esses vaampiros.Eles se alimentam de suas energias e estão sempre por perto das tragédias, prontos pra jogar sal nas feridas, pra dizer que viram seu ex-namorado com outra ou pra lhe contar a tragédia do parto de uma amiga quando você está grávida.
Ou pra sugerir que você é gorda, pobre, incompetente ou interesseira, mas só assim, de brincadeirinha.
Freud explica os atos falhos, os chistes, né?
Ou então aquela amiga chorosa, pra quem tudo na vida é uma tragédia, e você vive compelida a tirar a roupa do corpo e dar a ela, mas ela provavelmente vai dizer "tá grande", ou pequena, ou apertada.
Ou o contrário, a que tem a vida perfeita, mas continua ali, colada na sua vida sem graça(pra ela), por que será?
A minha alma precisa evoluir, é pequena, imperfeita, preguiçosa.Já tem consciência, mas não segurança.Precisa de distância dos vampiros, não gosta de cheiro de alho e não crê o suficiente no crucifixo pra que lhe sirva de proteção.Mas tem um nariz afiado, herança das avós e sente cheiro de podre loooooonge.E tem pernas compridas e muita malícia.
Vade Retro!
por Mani * 9:15 AM
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[Quinta-feira, Março 04, 2004]
Eu, Eu Só e Eu Somente
Esse era um título de um poema infantil do tempo da minha avó, mas que eu gostava muito.
E casa com a minha preocupação anterior, da qual eu acabei me desviando(como sempre) e não cheguei a completar.
Aliás, Freud explica, eu não consigo chegar nesse assunto(rodeio, rodeio, e quando chego na hora, empaco)que é a transição para a maternidade.
Mas continuando a solteirice.
Porque eu acho que aquela vida de casado de filme americano da sessão da tarde é solteirice também.
Aquele casal bonito, chique, com o ap arrumadinho com tudo de bom, comendo na rua em seus respectivos trabalhos, se encontrando à noite para ir pro cinema, teatro, festas, répiauor, é solteirice.
Filho desarruma, bagunça, desplaneja, imprevista.
Aliás eu já falei que acho lindo e tenho a maior admiração por gente que consegue planejar tudo?
Então a vida tá linda, perfeita, o ap , o marido, o dvd, as viagens, tudo arrumadinho, você pronta pra começar o doutorado ou aceitar aaquele emprego de trocentas horas por semana quando...
Começa a dar o tal comichão.No começo não é nada.Um bebezinho na fila do banco, uma menininha gorduchinha na praia, um outro lambuzado de sorvete no restaurante.
Logo você está frequentando a grade do carrossel do parque de diversões e dando crise de choro em filme de drama americano-tipo briga pela guarda, mãe de aluguel, abuso sexual ou órfãos.
Daí pra ficar secando o filho dos outros é um passo, e pra "esquecer" os métodos contraceptivos, menor ainda.
Ah, tá.Mas minha vida não é um mar de rosa, eu devo os cabelos do cu, não tenho emprego, moro na casa da minha mãe e mesmo assim quero ter um filho.
Bom, seu caso é grave.Trata-se de um caso clássico de insanidade, temporária ou, pior, permanente, causado por algum tipo de carência afetiva que você quer resolver trazendo uma pobre criaturinha ao mundo.
E tem os "normais" .Gente como a maioria de nós, que não tá na completa miséria mas não tem dinheiro pra ir à Europa no final do ano(provavelmente nem até a cidade vizinha, se vacilar) e que tem que escolher entre pagar a luz ou o telefone.(adorei o sorteio de contas, Naty, vou adotar).
Nesses casos, a única coisa a avaliar é se a sua necessidade de ter um filho está ligada ao seu desejo, ou ao desejo do outro , embora até nesses casos ele venha lhe trazer algo que você precisa.
Sim, chegamos ao ponto.
Às favas com a sensibilidade dos racionalistas.
Filho é destino sim, Fabi.
São eles quem escolhem nascer, sim, Monix e Ana Paula.
E quando eles decidem, decidem no seu melhor momento, só que às vezes você não sabe.
Decidem qual é o melhor momento pra você aprender a ceder, a deixar de se colocar em primeiro lugar, né Alê?
Decidem qual é o momento de desafiar ou fazer as pazes com seus pais.
Decidem que você precisa ir à luta, ou ficar quietinha em casa, né Monix e Dedéia?
Decidem que tá na hora de casar, ou de se separar daquele traste.
Decidem, mas às vezes a gente não ouve, e aí vai, aos trancos e barrancos, carregando a trouxinha pela vida, tropeçando aqui e ali, ouvindo verdades absolutas daquelas boquinhas miúdas, que nem largaram o peito ainda, mas que às vezes têm tanto bom senso, né Ju ?
Como eu disse, ser mãe não é difícil, difícil é viver, é ouvir, escutar, aprender.
por Mani * 4:18 PM
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[Terça-feira, Março 02, 2004]
Ainda em "Considerações sobre o amor", ou sobre como vivemos, amamos e nos tornamos mães:
Tenho visto muito sobre como a maternidade não tem Manual de Instruções, sobre como é difícil criar filhos.
Desculpem queridas, difícil é viver.
Não naquela imitação de vida de solteira egoísta, no seu apartamento limpinho de geladeira vazia, pq é mais prático engolir um sucão supersaudável ou até uma cocacola trash na padaria da esquina.
Todo mundo chega aos 16 doido pra chegar aos 18 quando finalmente vai sair de casa(daquela bagunça, invasão de privacidade) e ter o seu lindo e individualistico apartamento?
Aí a gente faz faculdade, cria uma carreira, namora, se amiga ou mesmo casa, mas continua cada vez mais entrincheirada no seu "espaço individual".
Lembra aquelas listinhas de "coisas que acabam casamento" que as revistas "femininas" adoram, como espremer tubo de pasta assim ou assado, largar toalha molhada na cama, sair do box molhando o banheiro todo, ou até abrir o pacote de pão pelo selinho metálico ou rasgando o saco.
Quando a gente é solteira, se o cara faz isso, aquilo, mexe de um jeito ou de outro, a gente já chuta.
Quando você vai morar com um cara, casada ou não, há uma expectativa:
Dividir o espaço ou a vida?
Geralmente começamos dividindo espaço, medindo distâncias, testando limites.Dependendo de como cedemos e ocupamos, dividimos a vida ou partimos pra outra.
Além da atração incontestável, física, química, afetiva, o que vocês têm em comum?
Educação importa, cultura?
Origem cultural?
A gente aprende ou ensina pessoas diferentes ou acaba criando abismos intransponíveis?
Tudo depende de se você quer dividir espaço ou vida, não?
Quem quer dividir a vida, compartilha, ensina, aprende, aceita, cede, ocupa.
Quem quer dividir espaço é ciumento, das "suas" coisas.
Todo mundo precisa ter seus amigos e ninguém é obrigado a compartilhar tudo, mas quando você divide a vida com alguém, você sabe que pode.
Pode sair sozinha, mas pode levar o marido junto, o programa vai ser legal do mesmo jeito(embora diferente).
Pode ir com ele se quiser, será bem vinda, mas também pode não ir sem ficar com a pulga atrás da orelha.
Ah, relação ideal, isso não existe!
Bom, se não existe 100% do tempo, existe às vezes.Nosso trabalho é fazer com que esses momentos virem a regra, não a exceção.
por Mani * 9:39 AM
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