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[Quinta-feira, Agosto 05, 2004]

Minha Mãe e Eu
É fácil falar.
É fácil dizer "Não serei igual a ela", "Farei tudo diferente".
Mas quando nos pegamos repetindo os mesmos gestos, dando os mesmos gritos, quando os filhos nos repetem o que dissemos a ela, o que fazemos?Como nos sentimos?
Não nos vem à mente a famosa "praga de mãe"?Aquela, "Você vai ver o que é bom quando tiver os seus filhos!" .
E aí?Podemos escapar da maldição?Ou estamos presas à cadeia de continuidade que fez a nossa mãe e a mãe dela, e a mãe da mãe...
Cada um dá o que tem, faz o seu melhor.E a cada geração transmutamos as leituras dos que nos antecederam.Às vezes lemos errado, cometemos erros, mas sempre tentamos acertar.Nossas mães nos amaram como podiam, como eram capazes, menos que nós, mais que as mães delas(espero!).
Então de onde vem essa dor?De onde vem essa sensação de que nos roubaram algo, de que perdemos pra sempre o que nos era de direito?De que tínhamos que ser mais felizes, mais amados?
Desde que nascemos tentamos recuperar aquela sensação de unidade com a nossa mãe.Aquela sensação não que a mãe é nossa, mas que somos um com ela, somos parte do seu corpo e de sua alma, de que o nosso cordão umbilical não se rompeu.É difícil aceitar a separação.É difícil aceitar outros intrusos, como pai e irmãos.Cada um, a partir daí vai criando defesas, formas de ler a realidade.
A partir dessas leituras fazemos a nossa interpretação da vida.Do nosso modo de ser sentimos as ações do outro, agora não mais parte de "Eu", agora "Nós".Alguns se esforçam pra vê-la distante, protegendo-se de mais decepções.Outros passam a vida perseguindo o objetivo inalcançável de voltar a ser parte dela, tentando afastá-la de tudo e de todos.Outros ainda arranjam substitutos, pálidos, que não estão à altura, para o seu lugar.
Calma, se você não reconheceu nenhum dos casos, ou pior, se se reconheceu em todos, não se preocupe, você é normal, são só exemplos.
A atitude da sua mãe também é uma releitura da atitude da mãe dela, como a sua certamente será, por mais que você se esforce em ser igual, ou diferente.
Duas ondas nunca são iguais, por isso os filhos não são iguais, muito menos as mães.Seu filho tem um pai diferente, vive num mundo diferente, tem uma mãe diferente , sim, não queira fazer dele igual a você, não tenha medo que ele sofra como você.
Irmãos são companheiros de jornada, numa bad trip, às vezes.É aquele que esconde a sobremesa ou fica com o último bife, mas também é aquele do olhar de cumplicidade, que lê com você os sinais, sem precisar de explicações.Quem já chorou abraçado num quarto escuro de madrugada sabe o que é um irmão.
Mas as leituras são diferentes, imagine as interpretações.Quem já leu João Ubaldo Ribeiro ou Mário Prata falando de sua surpresa ao descobrir interpretações insólitas de sua obra, entende como se pode interpretar a literatura, que dirá a vida, de formas tão diferentes.
E na releitura contrastante se aprofundam as diferenças fraternas, causando às vezes poços sem fundo,de margens inalcançáveis.
Para isso são os amigos, para xingarmos a família, a mãe, o pai, os irmãos, aqueles cretinos, para dizermos o quanto somos infelizes e ouvirmos um "nós te amamos", que reconforta a alma, fortalece a mente, prepara os pés para o recomeço da jornada.
Os amigos são o verdadeiro caminho de Santiago.O caminho do meio.O caminho da escolha.
A família é o desejo, os amigos a morte do desejo, a aceitação.
A família nos vê como somos, os amigos nos aceitam assim mesmo.


por Mani * 7:20 AM

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