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[Quarta-feira, Setembro 19, 2007]

O Século XXI

Eu dou aula online, eu estudo online, eu converso com amigas, vejo as fotos, sei das notícias, tudo na web.Quando eu estou conversando com alguém e quero me referir a um texto, um autor, um programa, um filme, eu googlo, vejo no youtube, procuro no orkut.
Eu tenho 43 anos e quando eu era criança tinham dois canais na televisão e não tinha nem gravador cassete.
Os meus filhos nasceram já no meio da explosão da tecnologia, que todos os dias dexa alguma coisa obsoleta.Hoje eu li que a Sony deu adeus ao formato DVD (eu ainda estava funcionando em formato CD ...).
Como querer que essas crianças armazenem informação? Além da quantidade ter aumentado absurdamente, não só pelo número de novas descobertas como pela interligação entre as culturas e fontes, há uma enorme facilidade de acessá-las, tornando a difícil e incômoda memorização em uma coisa inútil.
Usando a informática como paralelo, nosso HD precisa ser preenchido com programas, não dados. precisamos saber como fazer, como usar a informação que viaja pelas ondas da tecnologia moderna,
Eu sou terapeuta e outro dia me chegou uma mãe com um rapazinho de uns 14 anos, dizendo que o menino não lê, vai mal na escola, etc, as queixas de sempre. Conversa vai, conversa vem, ela reclamou do playstation, o joguinho que anda pra todo lado numa sacolinha. "Nós demos um computador de última geração mas ele só quer andar na casa dos colegas com o jogo". E eu perguntei o que ele faz no computador. Nada." Baixo música pro mp4, falo com os amigos no orkut e msn, mas é chato, tem que ficar digitando, telefone é melhor."
Tem a tecnologia, mas não tem o "programa".Meus alunos usam photoshop, têm blogs, fazem templates, sabem wordpress, baixam filmes, convertem, gravam, fazem vídeos pro youtube, gravam, editam, colocam efeitos, fazem música, podcasts, mixam, gravam.Lêem, escrevem, fazem fics e fanfics, daigramam, usam pagemaker.
Se você não entendeu metade do que eu escrevi, não se assuste, são coisas que eu sei mais de ouvir eles falarem. Mas eles dominam. Usam o "programa" e os programas, dominam os dados, as informações, constroem o saber, executam, não somente cortam/colam.
Essas crianças sabem.

por Mani * 12:25 PM

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[Quarta-feira, Setembro 12, 2007]

Pré-escola

Uma das coisas fundamentais na vida são os livros.
Me perdoem os que não gostam de ler, afinal eu detesto esportes, não gosto nem de assistir, embora reconheça o valor do exercício físico para o desenvolvimento humano, reconheço que criei dois filhos sem a menor vocação para o movimento. Mea Culpa.
Uma das coisas divertidas na minha vida atualmente é passear nos sebos e comprar para minha filha os livros que eu li quando criança.
Bom, mas a pré-escola.
Uma das verdades que o construtivismo descobriu é que, num ambiente letrado, as crianças aprenderão a ler.Não importa se vovô viu a uva, se a casinha é feliz, se o método é global ou montessoriano.Adultos analfabetos vem (droga, como fica vem no plural com essa reforma, Monix?) de ambientes iletrados, sem acesso a palavras, livros, revistas, outdoors, propagandas.O analfabetismo está acabando porque a propaganda invadiu o interior, resta-nos o analfabetismo funcional, mas essa é outra história.
Bom, mas se as crianças vão se alfabetizar de qualquer forma, que importância tem a pré-escola?
Simples, o prazer que ele tirar desse primeiro contato com o mundo letrado vai determinar a reação dele para o resto da vida.Se o seu filho já passou da pré-escola, calma, espere um pouco, mais adiante eu falo com você. Se ele ainda é bebê, então ouça, você vai me entender agora.Sabe uns cheiros, uns gostos que você traz da sua infância? O cheiro do sabonete da sua avó, quando pegava você no colo, cheiro de bolo de fubá, de biscoito de polvilho, de bolinho de chuva.Todo mundo tem um cheiro, um gosto que lembra momentos felizes. Eu lembro do cheiro do livro novo, de comer torta de chocolate folheando o livro, antecipando o prazer de ler, enquanto minha mãe ficava falando "espere chegar em casa, vai sujar o livro".
Então esqueça aquele conceito de que a escolinha é onde a criança vai para brincar, ou melhor, entenda que brincar num ambiente letrado é a melhor forma de criar uma relação saudável com a escola.Porque aí vem outra coisa que me apavora, as pré-escolas que querem ser pré-vestibulares.Se o seu filho de cinco anos já está aprendendo a ler na escola, já tem dever de casa e a professora começou a discutir a necessidade dele se concentrar e tirar melhores notas, peça socorro já!
Gente, exigência demais cansa! Aí aos dez, onze anos, seu filho odeia a escola e você não entende porquê?
Ah, mas o filho da vizinha já conta até 1000 e sabe as iniciais se todas as palavras. Ótimo, vai trabalhar no circo e aparecer no fantástico.
Uma vez eu assisti um globo repórter mostrando crianças asiáticas fazendo cálculos assombrosos de cabeça (Tá, me matem, eu algum dia assisti globo repórter!).
Coincidentemente ou não, pouco tempo depois eu li ou vi uma outra reportagem falando sobre o índice de suicídio adolescente nesses mesmos países, causado principalmente por fracasso escolar (na verdade falha diante das expectativas da família).
Eu volto ao assunto.


por Mani * 8:48 AM

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[Terça-feira, Setembro 11, 2007]

Alfabetização

Eu falei e saí.Quando voltei não tinha mais ninguém, mas os ecos estavam lá, achei que precisavam ficar gravados em algum lugar.
Quando eu tinha 20 anos, não dava a mínima pra crianças.Criança pra mim era um mal necessário para que pudessem existir festinhas com pãozinho delícia, brigadeiro e docinho de uva coberta com massa de beijinho (a do fondue é boa, mas não chega aos pés do leite condensado).É, eu continuei indo em festinhas de aniversário aos 20 anos, fingindo estar entediadíssima e caindo matando nos doces e salgados.E não era gorda, viu? Isso foi só dez anos depois!
Aos 22 eu engravidei.Porque quis, e descobri o meu filho.Só depois descobri as outras crianças.Com um ano ele descobriu a escola e eu descobri a pedagogia.
O primeiro livro que eu li sobre crianças foi a Psicanálise dos Contos de Fadas, de Bruno Bettelheim.
A pedagogia me trouxe o construtivismo, o construtivismo me trouxe a psicopedagogia, a psicanálise.
A prática na clínica me levou às oficinas de leitura, aos contos de fadas e de volta a BB, como costumamos chamá-lo nos cursos ( né Ci?)
Eu me alfabetizei um pouco esses anos, com cada filho, cada aluno, cada paciente.
Amanhã eu quero falar da escolinha, de como escolher uma escola, de porque a pré-escola é mais importante que o pré-vestibular.

por Mani * 6:11 PM

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[Sábado, Setembro 01, 2007]

Família

Quem me conhece sabe "é vem bomba!".
Eu não me dou muito bem com a minha família original.Na verdade, eu não me dou e recebo menos ainda.
Não gosto de jeito de ser deles e não quero ser assim.
Meu drama desde sempre é o seguinte : Pode alguém mudar?Rejeitar um modo de ser e ser diferente? Ou vai estar sempre fadado a repetir o modelo aprendido mesmo a contragosto?
Em que momento eu decidi mudar? Quando olhei pros meus filhos e percebi que não os queria daquele jeito.Eu sabia que não era assim que se devia levar a vida, sabia o que não queria ser, mas não sabia como ser melhor.
Então eles me fizeram um enorme favor.Num momento crucial da minha vida, eu deixei de ser interessante pra eles.Não havia mais vantagem em permanecer ao meu lado.Sozinha, eu precisei me reestruturar, aprender tudo de novo.
Bati muito a minha cabeça de lá pra cá. Desprogramação é muito difícil.
Em determinados momentos minha programação anterior, misturada com fatos além da minha vontade me custou amigos pelo caminho.Mas eu encontrei "minha turma".Elas não me cobram, não me julgam.Quando eu estou lá no fundo do poço, me sentindo culpada pelo pecado original , elas me dizem "nós te amamos".


por Mani * 4:47 PM

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